As piores traduções de ementas não resultam de mau inglês. Resultam de excesso de zelo: alguém traduz o nome em vez de descrever o prato.
Assim, um cliente pede «Hunter's Stew», o empregado não sabe o que é, e na cozinha ninguém chamou alguma vez ao bigos outra coisa que não bigos. Na versão extrema, ainda visível em ementas por toda a Europa, um prato polaco de arenque torna-se «follow in oil», porque a máquina leu śledź como um verbo no imperativo.
Segue-se a regra que elimina a maioria destes erros e um método para fazer a sua própria lista numa tarde.
A regra: o nome fica, a descrição acrescenta-se
Um cliente que foi a Espanha quer comer fabada, não «Asturian bean stew». Na Polónia quer pierogi, não «Polish dumplings». O nome é aquilo para que o cliente aponta, o que diz ao empregado e o que procura depois no telemóvel. Substituí-lo é tirar-lhe a referência.
O formato que funciona:
Bacalhau à Brás 14 €
Shredded salt cod with egg, onion and straw potatoes
Nome original na linha do prato e uma frase descritiva por baixo, em letra mais pequena. A descrição responde a 2 perguntas: o que é e o que leva. Nada mais.
Três grupos que nunca se traduzem
- Nomes de pratos tradicionais: bigos, żurek, fabada, cassoulet, ribollita, Sauerbraten. O nome é o prato.
- Denominações protegidas da UE: oscypek, manchego, Prosciutto di Parma, Roquefort, Kalamata. São protegidas por lei: traduzi-las não é uma questão de estilo, é um erro.
- Nomes da casa e marcas: «The Chef's Board», «Grandma's Set». Mantêm-se, por mais estranhos que pareçam no estrangeiro.
O que a descrição tem de explicar corretamente
Identifique o que pode surpreender. Miudezas, sangue, sabores ácidos, carne de vaca crua, porco. O cliente que só o descobre à mesa deixa o prato por comer e escreve uma avaliação; quem lê e pede na mesma é exatamente o cliente que procurava.
«Stew» sozinho não diz nada. Abrange tudo o que é estufado. Só funciona acompanhado de 2 ingredientes: pork and cabbage stew, bean and chorizo stew.
Cuidado com os falsos amigos. Para a maioria dos falantes de inglês, ham significa fiambre, por isso é preciso explicitar a cura: cured ham, aged 24 months. Trigo-sarraceno não é porridge. Uma costeleta de porco panada não é uma cutlet no inglês do dia a dia.
Diga como é servido. Served warm, for sharing, carved at the table, some of them hot. Metade das perguntas a que um empregado responde diz respeito à apresentação, não aos ingredientes.
Criar a sua lista numa tarde
Não precisa de um dicionário da cozinha nacional. Precisa da sua ementa.
- Escolha os 20 pratos mais vendidos. Representam a maior parte da faturação e são os que geram mais perguntas.
- Escreva uma frase para cada um, dizendo o que é e o que leva. Primeiro na sua língua; depois traduza a frase, não o nome.
- Leia as 20 frases em voz alta, seguidas. Os inícios repetidos saltam à vista. «Prato tradicional de…» e «Clássico…», repetidos ao longo das descrições, fazem a ementa parecer escrita por uma máquina.
- Verifique as primeiras 10 traduções automáticas. Se partiu de uma máquina, reveja à mão as primeiras 10 e anote o tipo de erro: o mesmo estará nas outras 50.
- Dê o ficheiro a um empregado de mesa. Ele sabe que pratos geram perguntas, e a lista dele não vai coincidir com a sua.
Evitar que fique desatualizada
Um dicionário guardado num documento à parte deixa de bater certo com a ementa ao fim de 3 meses. Muda um prato, atualiza-se a ementa e ninguém abre o ficheiro das traduções.
A versão que sobrevive é a mesma que funciona para os alergénios: a descrição fica junto do prato, onde já estão o preço e os ingredientes. Uma alteração da receita exige uma edição, não 2. Quando um prato sai da ementa, a tradução sai com ele, sem ninguém ter de se lembrar.
Quantos idiomas são realmente necessários e como o descobrir está em de quantos idiomas precisa a sua ementa. Como fica na prática: ementa multilingue.
Perguntas frequentes
Deve traduzir-se o nome do prato ou mantê-lo?
Mantê-lo. O nome original é aquilo para que o cliente aponta, o que pede e o que pesquisa depois. Por baixo fica uma frase descritiva na língua dele.
E as denominações protegidas?
Nunca se traduzem. Manchego, oscypek, Roquefort e Prosciutto di Parma são nomes protegidos: traduzi-los confunde o cliente e retira-lhes o significado jurídico.
A tradução automática é suficiente para uma ementa?
Para a descrição, como ponto de partida. Para o nome do prato, não: é daí que vem «follow in oil». Reveja à mão os primeiros 10 pratos e verá o padrão de erros do sistema.
Qual deve ser o tamanho da descrição?
Uma frase. O que é e o que leva. Mais do que isso atrapalha a decisão do cliente em vez de a ajudar.
E as miudezas e os ingredientes invulgares?
Identifique-os claramente: tripe, blood sausage, pig's ear. Escondê-los custa-lhe o prato e a avaliação; a clareza custa-lhe apenas os clientes que nunca os iriam pedir.

